Dei Verbum: a Revelação

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Padre Flávio Colins
pnsnaz@hotmail.com

Os artigos anteriores, de maneira geral, nos deram a possibilidade de olhar para a Dei Verbum, a partir de fora, nos seus aspectos exteriores. Convém agora, entrar no conteúdo do documento para tentar colher a beleza e a riqueza da reflexão trazida pela Igreja sobre a Palavra de Deus.
Deus, ao revelar-se, usa a linguagem humana e essa, embora tomada por Deus, conserva todas as características humanas. Valerio Manucci (Bíblia Palavra de Deus) fala de três funções principais da palavra: informação, expressão e apelo. Na Bíblia, Deus aparece como aquele que ensina ao homem os caminhos que deve seguir para alcançar o sentido último de sua vida (ele informa), mas ela é também testemunha de como ele se exprime (é compassivo, misericordioso, lento para a cólera, etc); ele se expressa de um determinado modo e nos informa sobre algo. A palavra expressiva-informativa de Deus é sempre dirigida ao homem, seu interlocutor, e se torna apelo que requer uma resposta. Com efeito, na Escritura, Deus chama, interpela e convoca o homem para um caminhar juntos.
A Dei Verbum fala da Revelação como um diálogo de Deus com os homens “à maneira humana”. No primeiro capítulo são apresentados os seguintes aspectos: a existência, o objeto, a natureza, o modo e a finalidade da Revelação.
1. O que é a Revelação
É a livre iniciativa de Deus de comunicar a si mesmo aos homens ao longo dos séculos desde Abraão, passando por Moisés, os profetas e os sábios. De um modo especial, a vida eterna manifestou-se a nós em Cristo Jesus que revela Deus não só com palavras, mas também, com sua existência, sua presença e seu modo de ser, como afirma João: “Aquilo que ouvimos, vimos, comtemplamos e nossas mãos apalparam do Verbo da Vida…” (1Jo 1,1). A Revelação é dom, um grande presente de Deus à humanidade, fruto da sua benevolência.
2. Natureza da Revelação
Chama muito a atenção o dado bíblico recuperado pelo Concílio sobre o tipo de linguagem usada por Deus para comunicar-se aos homens: “Em virtude desta Revelação, Deus invisível no seu imenso amor fala aos homens como a amigos” (DV 2). Os textos bíblicos citados para esta afirmação são, sobretudo, Ex 33,11: “O Senhor falava como Moisés face a face como alguém que fala a seu amigo” e Jo 15,14-15: “Vós sois meus amigos… Não mais vos chamo servos, mas chama-vos de amigos”. Revelando-se, Deus se utiliza, então, da linguagem do amor e da amizade na relação com os homens para conversar com eles (cf. Br 3,38).
3. Objeto da Revelação
O objeto da Revelação é a “a vida eterna” que no principio estava junto de Deus e que, na plenitude dos tempos, “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A Vida, a Palavra, a Luz querem significar a mesma coisa: o próprio Deus que se abre aos homens e mulheres e se oferece a eles como a vida e a verdade plenas. O Concílio, usando as palavras de Paulo, fala de mistério: “revela-se a si próprio e os decretos de sua vontade” (Ef 1,9).
4. Finalidade da Revelação
A finalidade da Revelação é expressa pela DV 1 em termos de “comunhão” com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. Deus se revela para convidar os homens e mulheres a uma comunhão de vida, nós somos chamados a entrar na vida de Deus oferecida em Jesus Cristo. Isto se expressa de modo concreto na Igreja (1Jo 1,3), sinal visível e eficaz da comunhão das pessoas entre si e com Deus.
A Revelação, portanto, designa todo o processo de comunicação de Deus que vem ao encontro da humanidade, por meio de palavras e ações, desde a Criação até a Encarnação de seu Filho, a fim de convidar-nos a participar da vida que ele tem a oferecer – a vida eterna que estava escondida e agora foi revelada a nós.

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